
A emigração veio depois, uma estada no Senegal apenas porque teimava na ideia de desenvolver as capacidades vocais e o gosto pela música. É em Dacar que inicia a relação com nomes com quem irá formar o famoso conjunto Voz de Cabo Verde, na década de 60: Frank Cavaquinho, Tói de Bibia, Luís Morais, Morgadinho, Jão de Lomba. Nomes de luxo! Longe estava já a época em que trabalhara na estiva do Porto Grande - tempos difíceis de sobrevivência - e muito próximo o primeiro disco: um EP onde já constavam «Fervura» e «Eternidade». Mas a vida era madrasta: trabalhavam numa fábrica de café, à noite actuavam na «boite» gerida pelo Bana. Com o grupo ou só, passou a actuar em Lisboa, nos EUA, na Holanda. A carreira vai-se consolidando, a vida também: monta um pequeno negócio de lavandaria no Mindelo, embora as artes da música exigissem constantes viagens.
É mais tarde, após 1974, que Bana assume a instalação do restaurante e «dancing» Monte Cara, em Lisboa, importante no apoio a muitos jovens: «Vinham de Cabo Verde por minha iniciativa, como foi o caso do Paulino Vieira. Pediam-me que os auxiliasse a emigrar, dei-lhes oportunidade de mostrarem o que valiam.»
A vida de Bana é um percurso de mornas. A coladeira também entra no repertório, mas as mornas têm, nesta voz, forma única de passarem à eternidade. «A morna é a nossa canção de peito. Tem de ser cantada com sentimento, quase a chorar. Reflecte cada momento da vivência, a saudade, o desgosto, a paixão, o mal de amor. Passa-se qualquer coisa na nossa vida e lembramo-nos logo de compor uma morna. E o que não sabe vai ter com outro e manda fazer! Aconteceu muitas vezes eu estar com B. Leza e chegarem duas, três, quatro pessoas por dia pedindo-lhe que narrasse numa morna um facto da vida que para elas tinha sido importante.»
Se lhe perguntamos qual a morna de que mais gosta, responde: «Ah! São tantas, não há por onde escolher! Diria 'é esta', depois diria 'é outra'.» Olha para os filhos e para outros jovens e sente-se em paz: as melodias estão bem entregues. Mas mantém-se apreensivo: «Há muita morna quase perdida, esquecida. Temos de gravá-las para que não as esqueçamos, para que não desapareçam.» Por isso há uma novidade neste espectáculo: será distribuído um «libreto» com as letras e respectivas traduções. Achega estimável para a integral compreensão por quem não entende crioulo.
O encontro do Coliseu é uma excelente oportunidade para prestar ao artista o tributo que merece. E para confirmar que os anos passam pouco por esta voz que fez despertar tanto sonho, fez dançar gerações, desfraldou saudades inauditas da pátria, ajudou a moldar e a fixar um imaginário através do folclore e das histórias das suas canções.
(in Expresso - António Loja Neves)




